Um Alcoólatra Anônimo

26/06/2011

Se é só isso tá bão !!

Esta semana visitei o grupo de AA de minha cidade. Grupo pequeno, com 5 membros, os mesmos cinco de 6 anos atrás, 3 com chapéus de boiadeiro e mais 2 irmãos.  

São pessoas interioranas, “de pouca leitura” como eles mesmos se definem, falam manso, educados, hospitaleiros, e estão lá, firmes na programação.

O que tem menos tempo de sobriedade, tem 11 anos de abstinência. O de maior tempo é o fundador do grupo, 19 anos de sobriedade. Estive nesse grupo, no início da caminhada, 5 anos atrás, mas não consegui ficar. Eu queria provar, não sei para quem, nem porque, que eu não era alcoólatra. Fui um incômodo para eles. Debatia tudo, revidava tudo, até a existência de Deus eu colocava em prova. Tenho vergonha de falar isso, mas é verdade, naquela época eu não acreditava em nada. E justamente no meio desse pessoal super religioso, eu ia falar blasfêmias. Nem por isso me colocaram para fora, ou me trataram mal, sempre tiveram muita educação comigo, educação e paciência. E haja paciência. 

Esse membro de menor tempo, ainda faz o mesmo depoimento de quando eu ia lá. Tudo igualzinho, e tem uma parte, em particular, que me dá vontade de “bater” nele. Ela fala assim: Cheguei aqui, o companheiro me trouxe, fiquei lá no fundinho, ouvindo os outros falarem, e li na plaquinha “evite o primeiro gole”, pensei, então é isso? Se é só isso tá bão, é fácil, e fui ficando. Pessoal, como é  que ele acha que é só isso? É tudo isso!!! Como era difícil para mim evitar o primeiro gole, ficar duas horas sem beber. E esse companheiro vem e fala: é só isso? Tinha vontade de “bater” nele devido à minha incompetência, minha fraqueza, minha falta de propósito. Hoje eu sorrio quando ele fala isso. Aceitei minha fraqueza. Dentro de minha suposta sabedoria, ele é mais esperto do que eu.  

Com o tempo, vim a perceber que não é só parar de beber. Tem muita coisa que precisa ser modificada, mas em mim, para que é que eu vou incomodar o cidadão. Ele está ótimo, sorriso nos lábios, educado, e está lá, firme para receber mais um companheiro que ainda sofre. E assim que for possível, eu volto lá, só para ouvi-lo falar: Então é isso? 

Se é só isso tá bão.


Escrito por Um AA às 13h45
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16/12/2010

Proximidade do Natal

Esta semana um companheiro me perguntou como estou me saindo com estes sentimentos que a época de Natal provocam. Percebi então que ainda não entrei em clima de Natal.
É uma data muito nova para mim ainda, será o quarto Natal sóbrio que passarei, sendo o primeiro internado, e os outros dois trabalhando, fazendo plantão em um Hotel Fazenda.
Nestes dois anos que passei trabalhando a tentação foi grande, mas as conseqüências seriam piores, então nada de ruim aconteceu, pelo contrário, foi até engraçado, pois estávamos em dois funcionários de plantão, e o meu colega, lá pelas onze da noite já estava inoperante.
Totalmente embriagado precisei tirá-lo do chuveiro e deitá-lo no chão da manutenção, enquanto atendia os chamados dos hóspedes.
Perto da meia noite, estava atendendo uma chamada na quadra de tênis, e o dono do hotel apareceu com uma taça de champagne para mim. Pode?
Falei a ele que não estava bebendo, tinha bastante serviço a fazer, e ele me perguntou do meu colega. Falei que o mesmo estava resolvendo outro chamado e me mandei.
Não adiantou muito, pois logo depois fiquei sabendo que ele havia acordado, fora até o restaurante e dera um beijo na boca de uma garçonete. A segurança fora chamada e o havia levado embora do Hotel.
No ano que passei internado não houve nada engraçado não, foi é muita tristeza mesmo, ainda tinha muita culpa, não havia me rendido totalmente, estava inconformado.
No ano passado, o segundo trabalhando, eu estava descontente com o Hotel, trabalhei meio na marra, mesmo assim ganhei um litro de vinho do dono. Parece provocação né? Dei rapidinho a garrafa para uma arrumadeira e me diverti vendo os hóspedes chapados. Sempre lembrando que eu já estivera no lugar deles.
Agora este ano estou desempregado, totalmente livre para fazer o que quiser, e o que eu mais quero é evitar o primeiro gole, coisa alias, que nem havia me passado pela cabeça, até que me perguntaram como estava lidando com a proximidade da data.
Pois bem, a data está próxima, mas eu estou longe de ingerir este fatídico primeiro gole, isso porque o programa e vocês me ensinaram uma nova forma de viver, uma nova forma de encarar os eventos da vida, uma forma serena, espiritual e prazerosa.

Obrigado.
Mas é só por hoje.
Um feliz Natal a todos, e + 24 hrs de serenidade,


Escrito por Um AA às 21h45
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07/12/2010

Descobertas

Toda vez que o dia não me oferece uma visão agradável, como no caso dos dias nublados, eu vou procurar esse conforto em meu interior, e não é sempre que acho. Normalmente encontro o mesmo tom cinzento de fora.
Quando isso ocorre, ponho-me a refletir o porquê desta necessidade de sempre me sentir bem.
Nos tempos que bebia, essa sensação desagradável era afogada com álcool, não durava mais que uma hora. Porém agora, não quero mais beber. Não quero e não preciso mais. Minha necessidade agora é descobrir de onde vem essa sensação desconfortável.  Na verdade, e com certeza, se eu bebesse me sentiria muito pior. Por experiência própria, quando eu bebi, as nuvens não foram embora e deram lugar ao sol, tudo continuou do jeito que deveria ser.
Acredito que esta sensação desconfortável, é mais desconfortável para mim, pelo fato de nunca ter encarado de verdade esses sentimentos.
Sempre que me sentia pouco à vontade, recorria ao álcool, mascarando o real sentimento de que nem todos os dias são ensolarados.
Quando recorro a meu interior, buscando alívio, não encontro, pois não estou ainda preparado para aceitar e conviver bem, com as situações que não me agradam. Acredito que na verdade, sempre tentei viver como se a vida fosse uma festa. Não havia lugar para problemas, para tristezas, para momentos de solidão. Sempre que esses momentos apareciam, eu os afastava com o uso de álcool. Eu fazia da vida uma eterna festa, eterna e falsa.
O lado positivo dessas descobertas é que não penso em beber, aceito minha impotência perante o álcool, sei que não mudaria a situação. O lado negativo é descobrir como ainda sou imaturo, o quanto deixei de crescer enquanto bebia e não trabalhei minhas contrariedades.
Com um ano de abstinência, fiquei perturbado ao ler um artigo que afirmava que a maioria dos alcoólatras é imaturo. Procurei meu padrinho e lhe perguntei se ele me achava imaturo, ao que ele respondeu de imediato: É claro!
Bem, ali descobri que também não estou preparado para ouvir as verdades de forma direta e clara. E venho trabalhando, dia após dia, a me aceitar, me contrariar, fazer de forma diferente, só por hoje, pois é assim que o programa me sugere, e tem dado certo. Minha vida melhorou bastante sem o uso de álcool, mesmo em dias nublados.
Hoje é o terceiro dia consecutivo de chuva, e estou gostando de aproveitar o tempo para entrar em contato com o PS, e pedir a Ele que me oriente qual Sua vontade para minhas atitudes e pensamentos. Está bastante proveitoso, e incrivelmente agradável. Quem diria?
Este programa é realmente maravilhoso.
Um abraço, e + 24 hrs de serenidade,.


Escrito por Um AA às 08h30
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17/11/2010

Sou um AA

As coisas continuam não acontecendo do meu jeito. As coisas estão acontecendo do jeito que devem acontecer. Algum tempo atrás, isto era um bom motivo para beber. Hoje, com a ajuda da oração da serenidade, posso aceitar com suavidade esse fato tão lógico. Como pude pensar de outra forma antigamente?
Pois é,pensava, e queria, e bebia, e as coisas não mudavam nem bebendo. Ainda bem.
Não tenho todo o dinheiro que gostaria de ter. Mas, devido à minha compulsão (sou um guloso, exagerado) se eu tivesse o dobro de dinheiro que tenho, ainda assim acharia que seria pouco. É esta natureza que tenho trabalhado. O programa tem me ajudado bastante. Ele me mostrou quanta coisa tenho que trabalhar em meu modo de ver as coisas. Elas sempre ocorreram certamente, apenas não estavam de acordo com minha vontade. Ora, o que é minha vontade? É correta? Tem mesmo que ser assim? Caro que não. Minha vontade é apenas minha vontade, e nada mais.
Hoje percebo como é gostoso, diante de alguma vontade própria, me colocar dentro do 3º.Passo. Seja feita sua vontade, e não a minha.
Pronto. Tudo se alivia. Não tenho mais expectativa, ansiedade, sofrimento. Como é sábia esta decisão. Aconteça o que acontecer, vou lidar com isso da melhor maneira que posso. Não sou mais responsável pelo que acontecerá. Minha responsabilidade se limita a enfrentar da melhor maneira que posso, a situação que se apresenta, sabendo que não sou culpado por ela ter acontecido.
Hoje sou um AA, não preciso mais beber.


Escrito por Um AA às 08h58
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05/11/2010

A duração do prazer


Ouvi em uma partilha de sala, de um companheiro que me é muito caro, o seguinte: “ O prazer que eu tinha quando bebia, durava o tempo exato do caminho que fazia até o bar “.
Não sei se isto faz parte da literatura de AA, ou se já é comum falarem isto, para mim foi a primeira vez que ouvi, ouvi e senti, a ponto de ficar meditando.
Nos dois primeiros anos que freqüentei o AA, eu continuava bebendo, sou cabeçudo pacas, e continuava fazendo do meu jeito. Não preciso dizer que não deu certo. Tive que ser internado, ainda bem que tinha alguém que acreditava em mim, pois eu mesmo não acreditava mais.
Nessa época, sabendo que o alcoolismo era doença, assim dizia o pessoal do AA, e que havia como deter essa doença, o álcool já não tinha mais o mesmo sabor. Nem me trazia mais o alívio que eu tanto
buscava na bebida. É aqui que entra o sentido da frase dita pelo companheiro. O prazer que a bebida me dava, durava só o tempo da caminhada até o bar, depois que eu bebia batia a culpa, o remorso, o
sentimento de fraqueza diante de mim mesmo, a derrota a meu lado, gargalhando de mim. Que horrível!!!
Como eram sofridos esses tempos. Os únicos momentos de prazer eram os poucos minutos que levavam até eu chegar ao bar. Era muito pouco pelo tanto de sofrimento que vinha depois.
Quando finalmente entrei em recuperação, ou seja, comecei a fazer o sugerido, parei de beber, comecei a praticar os doze passos, não dá para negar a existência daqueles dias em que enganava dizendo que se só tomasse uma, umazinha, me sentiria mais confortável. Aqui entra de novo o valor da frase. Se o prazer só vai durar o tempo de chegar ao bar, não vale à pena. É muito pouco, eu quero mais que esse prazer, quero paz, serenidade, saber que não preciso mais do álcool, que não sou mais escravo dele. Então adiava. E foi adiando, a cada 24 hrs, que hoje estou perto de três anos.
O valor dessa frase foi significativo na minha caminhada.
Sou muito grato a essas pessoas que me fizeram ver o óbvio, com frases e sugestões, aparentemente tão simples, mas de um significado muito profundo.
Obrigado a todos vocês.


Escrito por Um AA às 22h16
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10/10/2010

Esta noite eu vou dormir...

Esta noite provavelmente conseguirei dormir, pois a noite passada não foi fácil. Acordei várias vezes, levantei, e sempre minha vinha à mente a lembrança daquela mesma noite de três anos atrás.
Hoje minha vida é outra. Totalmente diferente, infinitamente melhor.
Mas as lembranças do que passei devido ao abuso de álcool, até hoje me abalam.
Naquela noite, há 3 anos atrás, eu estava numa clínica para tratamento de alcoolismo. Havia chegado no período da manhã, ligeiramente alcoolizado, fui direto para a cama, pois não comia nada havia 5 dias, só bebia, e me sentia fraco.
No quarto onde estava, deitado na cama ao lado da minha, havia um cara me olhando, nada falava, mas tinha uma aparência amigável. Se apresentou, chamava-se Paulo também, e era alcoólico. Estava ali há 4 meses, e iria dividir o quarto comigo durante meu tratamento.
Comecei a chorar. Tratamento? Quatro meses? Quanto tempo eu ficaria ali?
No chão, ao lado da cama havia um balde , encima da cadeira uma garrafa pet, que ele se apressou em me explicar, era chá de erva-doce, bem adoçado, iria me ajudar, e o balde era para eu vomitar. O choro saia solto de minha boca, não conseguia controlar.
Onde eu havia chegado!!! E me doía ter a consciência de que eu sabia que minha forma de beber iria me levar a isso. Quanta estupidez!!!!
O Paulo havia trazido um prato de comida, visto que eu não conseguia sair do quarto. O cheiro da comida me dava enjôo. Pedi que ele levasse embora, não conseguia comer nada. Me trouxeram um remédio e eu apaguei.
Acordei de madrugada soluçando de tanto chorar. Me vinha à cabeça a imagem de meu filho, também chorando por minha causa. Minha esposa, minha mãe. Todos chorando. O que eu fizera? Como pude ser tão cruel com quem me amava? Como eu deixara me levar até esse ponto?
Levantei e fui até a porta do quarto, havia uma mala aberta, reconheci minhas roupas reviradas, não me lembrava de ter trazido, mas eram minhas sim. Sentei no degrau do quarto, dava para uma mata, então estava num sítio. Comecei a chorar novamente. Tremia descontroladamente, as mãos, os pés, batia o queixo como se estivesse com frio. Eu sabia o que era aquilo, não era frio não. Senti uma mão
no meu ombro e vi o Paulo sentar-se a meu lado. Tentei parar de chorar e falei para ele ir dormir, disse não estar com sono, e ficou ali comigo. Nada falava, apenas olhava para o céu.
Foi uma noite horrível.
E teria outras mais pela frente. Naquela noite eu não tinha noção que ficaria ali por oito meses. Muitos dias intermináveis. Escrever meu inventário .... confrontos...
Bem, isso foi há três anos, mas ainda me abala. E é bom. É bom me lembrar até onde cheguei bebendo da forma que bebi, por ser um doente alcoólico que não se rendia, que não aceitava a condição de ser
impotente perante o álcool. Mas naquela noite percebi que o álcool era mais forte do que eu. Finalmente havia me rendido.
Esta noite eu vou dormir. Aceito minha doença. Aceito minha impotência perante o álcool.
Não troco minha vida de agora, por nada deste mundo. Imagina passar por tudo isso de novo? Para que? Não preciso mais beber. O AA me ensinou outra forma de viver. Bem melhor que aquela que eu havia escolhido.
Uma boa noite a todos vocês que me ajudaram nesta caminhada.


Escrito por Um AA às 18h31
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09/10/2010

3 anos

Hoje completo três anos de abstinência, já tenho alguns momentos de sobriedade e vários de serenidade. Tenho também alguns momentos de paz espiritual. São fantásticos. Quase sempre me pergunto o que é isso.
Seriam alucinações? Delírios? Contato com o PS? Sei lá, mas são momentos maravilhosos. Gostei desta nova forma de viver, e quero mais.
Para isso preciso do AA, de vocês ,do programa, do PS, ou seja, sozinho não consigo.
Essa contagem de tempo é polêmica, mas para mim tem muita importância, pois o máximo de tempo que conseguia ficar sem um gole, era duas horas.

Triste isso né?

Mas eu era assim, totalmente escravo, dependente, um trapo.
Os problemas continuam, mas, sinceramente? Não são tão grandes como eu os pintava. Nem sou o único a te-los, como eu imaginava. Não sou o pior, muito menos o melhor, como eu achava ser. Sou apenas mais um.

E hoje, com muito orgulho, sou mais um AA.
Hoje estou do outro lado do jogo. Jogo no time dos vitoriosos. Sou procurado para opinar, para ouvir, alguns até me pedem ajuda ...

Quem diria?

Logo eu! Pois é. Até isso tem acontecido. Até meu filho tem tomado uns porres. Tenho feito com ele, o que me permitem fazer aqui no CTO, levar a mensagem: há outra forma de viver, e bem melhor.
Nesta caminhada tenho colocado em prática vários “chavões” de AA. Não saberia dizer qual é o melhor, sei aquele que mais me faz bem, é o “Viva, e deixe viver”. Para mim ele resume e define meus limites, o que exceder essa marca, não me pertence, estou entrando em território alheio, posso gerar conflitos, e não os quero mais. Quero é a paz, a amizade, a ajuda e a companhia de todos que se encontram comigo nesta caminhada.

Obrigado a todos companheiros, vocês são parte importante desta data,
Um abraço, e + 24 hrs de serenidade,


Escrito por Um AA às 20h26
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20/08/2010

Dia dos pais

Alguns dias atras foi dia dos pais.
Meus filhos  vieram almoçar comigo, me trouxeram presentes, passamos um dia legal, e eu, totalmente sóbrio. Que benção!

Que gostoso! É o terceiro dia dos pais que passo sóbrio, graças ao AA e a vocês. Obrigado.
Mas o melhor presente mesmo veio durante o almoço, quando fiquei sabendo que meus sogros vão passar a semana aqui no sítio, comigo. A semana inteira ...

Aparentemente, pode parecer que é má vontade minha, mas vejam, ontem quando meu sogro chegou, colocou seu carro metade na garagem, e metade no gramado, de forma que a garagem não pode ser usada, nem o gramado para estacionar os demais carro, ou seja, o MEU, o do meu filho e o da minha esposa.
Desde a sua chegada, a nossa televisão só transmite futebol. É das nove da manhã, até as onze da noite. Sinceramente não sabia que existiam tantos jogos e tantos canais focados neste assunto
deslumbrante.
Enquanto a televisão transmite os jogos, minha sogra fica com um radinho de pilha, sintonizado em missas. Não tenho nada contra missas, aliás, sou católico, mas essas missas que ela ouve, são muito tristes, não são cantadas,são lamentadas. A palavra que melhor me vem à mete para definir o clima, é “ fúnebre”. Se eu pudesse ver essas pessoas saindo dessas missas, eu veria uma multidão saindo da igreja se arrastando. E ela não chora. Não sei como consegue. Nem sei como tolero.

O que sei é que antigamente, passava por essas temporadas bebendo, bebendo muito, e com isso, me anestesiava dessas contrariedades, desta invasão de espaço, e por que não dizer incômodo.
Mas hoje, hoje não, hoje não vou beber, sou um AA, e um AA não bebe.
Vou enfrentar a situação, fazer dela uma piada, dividir com vocês, se me esforçar consigo fazer destas situações algo engraçado, pelo tanto que tem de absurda.
Uma boa semana para todos vocês, e eu vou ter uma boa semana também.
Vou fazer todo o possível para transformar esta semana, na semana do circo, ou seja, uma semana de quem não mora em uma casa, e sim em barracas, não almoça a hora que quer, e sim quando o espetáculo permite. Enfim, uma semana diferente, poderá até ser cômica.

Esperemos  e veremos.


Escrito por Um AA às 18h55
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16/07/2010

As coisas não vão bem

As coisas não vão bem aqui em casa. Estou em recuperação há quase tres anos, estava me sentindo forte o suficiente, mas desde ontem à noite percebo que não estou tão forte assim.

Meu filho  ( 22 anos  ) se encontra em um estado de stress forte, e minha esposa com um mau humor contagiante.

Já tive oportunidade anteriormente de aqui mesmo colocar como o mau humor dos outros me afeta. Na ocasião decifrei de onde vinha esse meu incômodo, e cheguei à conclusão que era da minha infância, das atitudes de minha mãe.
Tentei encarar a situação, ver que não sou culpado por estas atitudes, e achei que havia resolvido esse problema. Mas não, novamente este fato me afeta. Sinto-me novamente culpado pelo bem estar dos outros.
Achei que isto já era um assunto resolvido em minha cabeça, mas vejo que não.

Meu filho está se relacionando uma garota bastante problemática. Ela mora com a irmã, não conhece o pai, a mãe já é falecida, não se relaciona bem a irmã, e tem atitudes, digamos, desajuizadas. Tentei falar a meu filho, com toda a assertividade que consigo que talvez esse relacionamento possa estar lhe trazendo desconforto. Não tive sucesso, não aceita. Para mim parece claro.

O fato é que como andei  lendo por aí, eu sou o” paciente identificado “, alcoólatra, hoje em recuperação, mas na minha família, existem outros pacientes, “ não identificados”. Por várias vezes pedi à minha esposa que freqüentasse o Al-anon, sem sucesso, Foi  algumas vezes mas depois desistiu.
Também indiquei para meu filho um terapeuta. Isso parece que ele vai fazer.mas a meu ver está demorando muito para agir.

Essa situação compromete minha serenidade, tento me colocar distante destes problemas, tento entender que não são meus, que minha parte estou fazendo, mas parece que não é suficiente.

Isso tudo me abala, mas uma certeza tenho comigo. Não vou beber. Não quero mais para mim aquele sofrimento todo que a bebida me trouxe, disfarçada de alivio para momentos como este. Não enxergo saída por ai, só mais problemas. Graças a este programa percebo que o álcool sempre foi um complicador para situações como essa. Por esta razão coloco aqui para vocês meu atual momento. Aprendi que partilhando minhas dificuldades,  elas se tornam mais leves, mais suportáveis. Vou colocar  em prática o 3o. passo, e aguardar.

Alguma sugestão vou receber.


Escrito por Um AA às 22h03
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28/06/2010

Reaprender

Preciso reaprender e me desligar emocionalmente de outros.
Sou um alcoólico, e por negar isso sofri as conseqüências todas que me alertaram quando ainda na ativa. Quando reconheci minha doença e minha impotência perante o álcool, percebi que muito ainda havia a ser feito para atingir a sobriedade. Comecei então a praticar o programa de doze passos. Foi uma abertura  inigualável para uma nova vida. Aprendi entre tantas outras coisas, que  sou o único responsável pelas minhas emoções e meus comportamentos.
A princípio pareceu um  programa egoísta, mais a fundo  percebi que é a única forma de crescer; primeiro eu; estando bem, dou ao outro, e assim continuo a crescer. Preciso do outro. Sou parte de um todo.

Mas sou o único responsável por mim.


Aqui está o desligamento emocional. Não posso sofrer pelo outro, pois senão não cresço, e não posso ajudar esse mesmo outro.
Consegui me manter assim por uns dois anos. Foram várias vitórias. Coisas que nem sonhava conseguir ou receber, aconteceram, me senti ótimo, acredito que também ajudei alguns.
Mas, aí vem o “mas”, o outro me incomoda. O mau humor do outro me incomoda, me faz mal, me coloca para baixo. A prática do ”sair de cena” sempre me ajudou, mas não gostaria que fosse sempre assim, gostaria de fazer algo mais.
Percebo que na maioria das vezes esse “mau humor” é gerado pelo mesmo sentimento que eu tinha, ou seja, “as coisas não estão ocorrendo como que queria que ocorressem”. Praticando o programa percebi que é assim mesmo, sou apenas a parte de um todo, e não o todo.  É tão simples, é lógico. Então me frustro com o “mau humor” do outro. Não sei lidar bem
com frustrações, hoje procuro evitar que elas apareçam, elas são perigosas para mim que sou alcoólico. Então, “saio de cena”.

Mas gostaria de fazer mais, mas, o que mais?


Escrito por Um AA às 23h10
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03/05/2010

Rodeio

Outro dia fui a um rodeio. Desde que mudei para o interior, há 17 anos, sempre fui a três ou quatro rodeios por ano, mas já fazia três anos que não ia a um. Estava fazendo o que me sugeriram, evitar velhos hábitos. Sempre quando ia, bebia, é claro, e dos últimos que fui, pouco me recordo.

Mas no de ontem me recordo de tudo. Vi muitas mulheres bonitas, poucas feias, e TODOS os homens horríveis ( não sei como mulher pode gostar de um bicho tão feio).

Quando disse que ia ao banheiro, fui realmente ao banheiro, e não pude deixar de me lembrar que algumas 24 hrs atrás, quando falava isso, saia desembestado a procura de uma barraquinha, para tomar mais uma, e tinha que fazer o tempo ser coerente com minha desculpa. Era um sufoco. E quantas vezes fazia a mesma coisa na mesma noite. Que sofrimento!

Ontem não, fui uma vez só, e no banheiro mesmo. É tão mais gostoso. Menos stressante, mais saudável, mais digno.
Minha santa esposa é boa de pontaria, e sempre ganha algo no tiro ao alvo.
Ela é melhor no chumbinho que na rolha, mas os prêmios do chumbinho eram garrafas de vinho, vodka, whisky, então ela me disse: prá que né? Ninguém mais bebe, vou nas rolhas mesmo. Ela ganhou um bombom, e me deu. Tem coisa mais bonita?

É claro que vi muita gente embriagada, principalmente jovens. Com o litro rodando de mão em mão. Lembrei-me dos velhos tempos, e pensei: será que daqui vai sair algum membro de AA daqui a alguns anos? Pode ser que nenhum  deles tenha problemas com o álcool, e pare logo depois, mas é bem provável que um ou outro não consiga mais parar. Me bateu uma tristeza. Mas o que fazer? Quem iria me dar ouvidos naquela hora? Quem sou para interferir na vida neles? Quem sabe um dia eles possam ir a um rodeio como eu estava lá, sem beber, me divertindo, e indo ao banheiro de verdade.

Aí então, eles perceberão que é bem mais gostoso sóbrio.


Escrito por Um AA às 10h07
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21/04/2010

5o Passo

Quando terminei a leitura, me foi sugerido que ficasse isolado, em qualquer lugar, refletindo. Lembro-me que fui ao pé de uma árvore e sentei-me. Os internos passavam longe de mim, me olhavam disfarçadamente, e ninguém se aproximou. A sensação que tinha era de que eu não estava lá.

Sensação de leveza de alma nunca antes experimentada.

Nada mais seria como antes. A vida tinha parado para me dar mais uma oportunidade de recomeçar. Todo o passado era passado, não me atormentava mais, eu havia dividido com duas pessoas e o PS. Ninguém disse que eu estava certo, também não me repreenderam. Eu estava no ponto zero, mas a sensação de solidão não existia. Dali para a frente outros tinham o conhecimento de meus erros, meus medos, minhas fraquezas. Não havia mais necessidade de usar máscaras, seja para afugentar outros, seja para mostrar o que não era.
Estava limpo, pronto para recomeçar. O rumo a ser tomado eu não conhecia, mas também não me incomodava, sentia alívio por ter colocado para fora todo aquele entulho, que por anos escondi, abafei, mas que me incomodava por saber que estava lá, agora humildemente eu tinha colocado na mesa, não era mais só meu, eu dividi com outros, eu confessei, eu assumi tudo que fiz.

Fiquei olhando para aquelas árvores ao redor, eu já estava naquele lugar há quatro meses, mas naquele momento elas eram diferentes, pareciam conhecer meus segredos, pareciam partilhar aquela paz comigo, não me olhavam mais com censura como quando havia chegado, não tinham mais aquele aspecto sombrio, de fim de mundo, eram apenas árvores, e eu apenas mais um.

Assim foi o meu quinto passo.


Escrito por Um AA às 07h13
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12/04/2010

A Antena

Estou a mais de vinte dias tentando colocar uma conexão com a internet para minha filha. Ela mora mais no meio do mato do que eu,  e nem telefone tem lá, de forma que estou tentando via moden. Já assinei um plano com uma operadora que me garantia que funcionava, e é claro, fui enganado.

Depois disso já tentei outras duas, com o mesmo resultado.
Comprei uma antena, não funcionou, então resolvi fazer uma antena. Sou metido pacas. Nove metros de altura, mais a casa, um metro e meio de comprimento, completamente desbalanceada, mas lá fui eu. Para instalar a mesma, devido ao tamanho precisava de ajuda, então convoquei minha esposa e minha filha para essa tarefa. Mas como sempre elas têm algo mais importante para fazer, geralmente em algum supermercado, então fui na frente para adiantar os serviços.
Deixei tudo pronto, estiquei os arames, levantei o mastro, e espera, espera. Como já estavam demorando muito,  conforme o tamanho da minha paciência, resolvi levantá-la sozinho, e fui. Estava encima do telhado equilibrando aquele peso todo, a antena pendendo hora para um lado, hora para outro, e eu tentando encaixar no suporte, e o celular toca no meu bolso. Não, agora não, vai esperar. E equilibra daqui, dali, consegui encaixar no suporte, a antena começou a envergar para frente, desci o mais rápido que pude pra esticar mais o arame, mas não o
suficientemente rápido para evitar que a antena despencasse do telhado, trazendo o suporte todo destruído e os arames arrancando pedaços de telha. O celular continuava tocando. Olhando tudo aquilo, peguei o celular e  atendi, era minha filha - tudo bem?
O que eu deveria responder? Não posso mais mentir, então – Não!
E ela – o que foi?
Respondi - a antena caiu!
Ela – ainda bem que é SÓ isso!   E eu – como é SÓ isso, é TUDO isso!!!
Ela falou - Não, poderia ser você que tivesse caído do telhado e agora estaria com a perna quebrada.  

Bem, desligamos e pensei, que fazer agora?
Na noite anterior havia adquirido no grupo que freqüento, o  livreto O Melhor de Bill, por sugestão de um companheiro, para ler sobriedade emocional, devido a reações minhas diante de posições de minha família, e este livreto estava no carro, então resolvi que aquela é uma boa hora para ler. Sentei na grama, apoiado na mureta e comecei a folhear o livreto procurando o sobriedade emocional,  deparei com o texto sobre humildade e logo pensei:  este me parece mais apropriado para o momento, afinal, se eu tivesse a humildade suficiente para reconhecer que precisava de ajuda, não estaria aqui agora com tudo isso aqui encima quebrado no telhado.
E me coloquei a ler. Depois li sobriedade emocional e elas chegaram, e não entenderam porque me encontraram com um sorriso no rosto e balançando a cabeça.


Escrito por Um AA às 15h06
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05/04/2010

Aniversário de 1 ano

Não é meu não, mesmo de sobriedade é um pouco mais, agora de idade, é bem mais.
Festinha de aniversário de 1 ano de vida, com direito a apito, chapeuzinho, língua de sogra, doces e muito refrigerante. Aliás, só refrigerante. E eu fui, quem diria, eu num domingo às 14:00 hrs, numa festinha de 1 ano, sem bebida alcoólica. Isso é fantástico.

Algumas vinte quaro hrs atrás, uma hora destas eu estaria desmaiado,e quando acordasse, encontraria com minha esposa voltando da festinha,
aí o remorso batia fundo, outra vez, e lá ia eu beber de novo, agora de remorso. Isso acabou! Agora eu vou, participo, e ainda consigo tirar algum proveito, além de me sentir parte da sociedade de novo, e fazer companhia à minha esposa.

Digo que tiro proveito por ver as coisas que me fazem lembrar como fui, e me alertam para que eu não volte a ser.. Em meio àquela gostosa bagunça de crianças correndo, apitando, caindo, gritando, pude notar um homem chegando que me chamou a atenção.

Ele vinha com aquele sorriso demasiado grande para a ocasião, pele brilhante, olhos marejados, andar flutuante.   Eu me vi naquele cara, e comecei a observá-lo. Não deu outra. Após uma hora mais ou menos, ele se dirigiu para seu carro, abriu o porta-malas e colocou a cabeça lá dentro. Voltou mais confiante, falando um pouco mais alto. Lembrei de mim a algumas 24 hrs atrás, também carregava no carro minha bebida, também ia de pouco em pouco até o carro, dando as desculpas mais esfarrapadas possíveis, sempre achando que todos acreditavam, que ninguém percebia. E também voltava mais alegre, mais falante, mais confiante. Pois sim, só ele sabe que alegria é essa, aliás, eu e ele.  Sendo mais justo, todos nós de AA sabemos que tipo de alegria é aquela. Quanta tristeza, sentimento de excluído, de incapacitado, inconformado com as coisas belas da vida, um aniversário de 1 aninho de uma menininha que é a coisa mais linda que já vi, depois de minha filha, é claro.

Pois é, desta vez eu estava do outro lado do palco, estava na platéia. É bem melhor. Sou grato a todos vocês de AA por hoje estar na platéia deste espetáculo horrível que é o alcoolismo.

Obrigado a todos os meus companheiros de AA.


Escrito por Um AA às 07h36
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26/03/2010

Imaturidade

Foi muito difícil aceitar minha imaturidade. Sendo mais sincero, está difícil aceitar, mas é fato, estou me esforçando, e o PS está me ajudando.

Quando estava internado, há dois anos, devido a meu estado emocional lamentável, me sugeriram escrever sobre meus sentimentos. Lembro-me que após relutar uns dias, eu decidi, me isolei e comecei a escrever sobre um tema que me parecia o que mais me atormentava: frustrações.

Descrevi todas as coisas me frustravam. Demorei uma tarde inteira, devido aos detalhes, sempre fui um perfeccionista, e não tive disposição de ler ao terminar. No dia seguinte, me isolei novamente e fui ler. Fiquei impressionado. Quanta imaturidade. Como é que poderia me sentir frustrado por coisas tão normais? Claras? Evidentes? Hoje não lembro mais de todas, mas uma delas ainda está bem fresca, eu não era mais o herói de meu filho, meu filho já tinha 20 anos, e agora tinha outros heróis.

Pois é, eu havia parado no tempo em que ele tinha cinco anos. Eu havia passado quinze anos bebendo, sem me dar conta que o mundo continuava a girar. Aqui comecei a perceber a minha imaturidade.

Estudando e praticando o programa, li que uma das particularidades do alcoólatra é imaturidade. Fiquei chocado, como posso eu com 55 anos ser imaturo? Fui perguntar a meu padrinho: Sou infantil, padrinho? E ele respondeu: Claro. Foi outro choque, afinal ele não mentiria para mim, sempre me ajudou.

De lá para cá, venho tentando não ser imaturo, toda vez que me sinto eufórico, tento me conter, pois não é uma atitude madura. Quando tenho certeza de algo, volto a pensar, pode não ser tão certo assim, ser maduro é ter cautela. E os sonhos? Como eu sonho .... como eu viajo .... mas isso eu luto em frear, como eu gosto de sonhar... afinal estou sóbrio, disso não abro mão, minha sobriedade e serenidade não troco por nada. Então, que mal há em sonhar?

Lá vou eu .... Toca Pink Floyd aí ....


Escrito por Um AA às 10h16
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20/03/2010

Casas Bahia

Em uma noite de 2006, eu acordei com uma voz bem alta dizendo:

- Olha a melancia, docinha, docinha, temos abacaxi, laranja, bananas, venha senhora, é baratinho baratinho....
E isso se repetia várias vezes, bem alto. Já estava me incomodando, olhei para o relógio e vi que eram 2:40 da madrugada. Pensei comigo, este cara está louco. Isso são horas de vender essas coisas? Quem sairia da cama pra comprar isso a uma hora dessas? Eu moro e um sítio, e esse caminhão estava na estrada de terra mais próxima da casa, a mais ou menos uns 600 metros, só tem pequenas chácaras por perto, bem espaçadas uma das outras. O cara devia estar louco. E continuava a gritar, me irritando a tal ponto de eu me dispor a ir lá falar com ele. Iria dizer para ele ir embora, que aquela não era hora de vender essas coisas, deveria estar bêbado o coitado.

Quando me sentei na cama, para tomar coragem de me levantar, me trocar, pegar o carro e ir lá, minha esposa acordou e perguntou aonde eu iria. Eu lhe disse: vou lá falar com ele. Está incomodando, veja se isso é hora. E ela, com sua paciência de santa me disse para deitar de novo, pois não havia nada gritando. Eu lhe disse, como não, não está ouvindo o caminhão das Casas Bahia?. Ela voltou a falar para que eu me deitasse. E eu pensei: Casas Bahia?

Pois agora o que eu ouvia era:
- Comprem nas Casas Bahia, é o melhor preço da região, venham conferir!  Sentei-me na cama assustado. Agora era nítido o som das Casas Bahia. O que estava acontecendo? Passou-me um calafrio na espinha. Era delírio.
Eu estava delirando...
Pois é, essa história me foi lembrada por um companheiro de AA que encontrei há pouco tempo. Isso ocorreu em 2006, uma época que eu freqüentava o AA à minha maneira, ou seja, tomava uma antes da reunião, e não via a hora de terminar para tomar mais outras.

Não preciso dizer que não funcionou, tive que ser internado no mesmo ano. Agora quando ele me encontrou, perguntou assim: e o caminhão das Casas Bahia, continua passando lá de madrugada?
Naquela época eu já delirava, mas não conseguia aceitar que tinha problemas com o álcool.
Só o PS e uma irmandade como esta para conseguir resgatar a minha sanidade.

Obrigado!


Escrito por Um AA às 07h37
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14/03/2010

Já morri várias vezes

Já morri de amor quando era jovem. Costumava dizer aos colegas que morria de amor por fulana, que daria minha vida por um beijo dela, que faria qualquer coisa por ela, e por aí ia. Mas isso acontecia com todas “elas”, e como não tenho, nem tive todas elas, então a maioria das vezes morri.

Também morri de ciúmes. Pode não ser a pior morte, mas é dolorida pacas. Lembro-me de uma das vezes que morri de ciúmes, estava em casa, morrendo de ciúmes de minha namorada, que estava de recepcionista em uma feira de máquinas. Meu ciúme era tanto que pintei em uma folha de cartolina, um monstro cheio de antenas, verde de olhos vermelhos. Não sei de onde tirei que o ciúme é verde, hoje acho que é por que queima como azia, corroe por dentro, deve ser verde mesmo. O vermelho dos olhos é por causa do ódio, cor de sangue. Com certeza naquela noite morri também.

Já morri de saudades também. Saudades da namorada que estava longe, do amor que tinha acabado ,de quem já tinha partido, dos amigos que se mostraram não tão amigos assim, e dos velhos tempos. Aqueles tempos em que saia de casa para me reunir com os amigos para não fazer nada, apenas ficar conversando, esperando a madrugada chegar. Sim, só poderia ir de volta para casa de madrugada, afinal eu era um adolescente exemplar.

Morri de medo também. Fui preso pela Rota, aos 20 anos, portando alguma coisa que não poderia ser portada na época, uma erva verde cheirosa, hoje também não pode, mas naquela época era grave.
Levaram-me para um matagal e me bateram bastante. Colocaram o cano da metralhadora na minha boca, e o soldado falava, para o outro, que estava com coceira nos dedos. Naquela noite eu morri quando disseram para que saísse correndo, em direção ao mato, e eu não fui, fiquei, mas estava morto.

Morri de alegria e prazer, viajando em balões ao escutar músicas que usam meu cérebro como partitura. Viajo tanto, vou tão alto, que chego onde não tem mais ar, e fico lá, até acabar a música, hoje mesmo fiz isso, ouvindo Oswaldo Montenegro. É minha morte preferida.

Mas a morte mais recorrente é quando bebia. Eu bebia tanto que só podia beber para morrer. E como bebia todo dia, todo dia eu morria. No dia seguinte morria de ressaca, de arrependimento, morria de vergonha do que tinha feito, morria de falta de animo para mudar aquilo. Até que me enterraram numa clínica.

Aqui jaz eu, de tanto beber.

Lá eu morri para aquela vida. Nasci para esta vida. Vida em sobriedade, em qualidade, e serenidade. Fui amamentado pelo programa de 12 passos. Fui acolhido por outros que também estavam morr endo, e hoje faço parte desta maravilhosa irmandade de AA, salvando vidas.
Quem diria. Eu que já morri tanto...

Dizem que o gato tem sete vidas. Eu acho que tenho mais de sete. Bem que minha namorada, hoje minha esposa, me chamava de seu gato.

Escrito por Um AA às 18h37
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05/03/2010

Ser o melhor

Sempre quis ser o melhor em tudo. E nunca consegui. Talvez por um curto período, tenha sido o melhor bebedor do meu bairro. Mas certamente isso não é nenhum privilégio. Nem mesmo sei se fui o melhor.

Essa atitude, obsessão mesmo, para ser o melhor, me causou várias frustrações, e com elas as conseqüências óbvias. A coisa começou desde cedo. 
Quando ainda criança, eu queria ser o melhor filho. Mas um dia minha mãe falou: por que você não come tudo que está no prato, veja seu irmão, ele come tudo. Pronto, eu não era o melhor filho, meu irmão é que era.

Na escola, eu era bom de matemática, me achava o melhor, ate o dia que a professora pediu para o Eduardo ensinar um colega nosso a resolver o problema de matemática. Pronto eu não era o melhor, o Eduardo é que era. 
Mais adiante, ainda na escola, gostava de uma menina linda, era a mais linda da escola, e eu queria namorar com ela, é claro, mas ela escolheu o Wagner. Pronto eu não era o melhor, o Wagner é que era.

No serviço também não tinha o melhor cargo, tinha sempre alguém melhor que eu. Aqui em casa sempre me achei o melhor, até que precisei ser internado por alcoolismo. Pronto não era o melhor. Até na clínica me achava o melhor interno. Eu aprendia mais rápido, sabia mais dos assuntos. Um dia foi um camarada lá, fazer uma temática, e se apresentou dizendo ser apenas mias um  alcoólatra em recuperação. Aquilo me pegou em cheio. Aquele cara era sem dúvida melhor do que eu, não estava internado, estava fazendo uma temática, me ajudando e se apresentava como apenas mais um.

Daí para frente comecei a pensar porque eu deveria ser o melhor. Aonde estava escrito que eu tinha que ser o melhor? Quem disse que vim ao mundo para ser o melhor? Por que eu preciso ser o melhor? Para mostrar a quem?

Então percebi: eu sou o melhor que posso ser, só. E isso já basta. É bem mais gostoso viver assim. Sou o melhor que posso ser, nunca tive a obrigação de ser o melhor de todos, eu mesmo  me impus isso. Precisei sofrer muito para me libertar desse compromisso que tinha assumido comigo, não sei por qual razão.

É mais uma gratidão que tenho pelo AA.

 

 


Escrito por Um AA às 20h19
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27/02/2010

Porta copos

Há pouco tempo troquei de carro, por um mais novo, é claro, são as promessas de AA. E nesse carro tem um porta copos entre os bancos. Achei muito sem propósito isso. Justamente nesta época de sei seca, que por sinal eu acho ótimo, agora que parei de beber é claro, os caras vêm e colocam um porta copos bem ao lado do motorista.

Dias depois notei que ao abrir a tampa do porta luvas, a sua tampa se transforma em outro porta copos. Aí fiquei indignado. Pensei em escrever para a montadora do veículo e dar um tremendo esculacho. Exatamente como fazia nas épocas de ativa. Cheio de razão e coberto por todas as autoridades possíveis e imagináveis que eu diria ser conhecedor. (mentiras).

Ate que um dia, ao minha esposa abrir o porta luvas, eu comentei com ela minha indignação, e ela serenamente me disse: que legal né? Podemos colocar uma latinha de água tônica aqui enquanto viajamos. POW!!! Olha aqui a mente alcoólica funcionando ainda. Aonde está escrito que é para colocar cerveja ou vodka lá? Só na minha cabeça mesmo. Eu contínuo achando que tomo mundo que bebe, bebe álcool.

Vai tontão, escreve para a montadora, fala um monte para eles!!!!

Sempre cheio de razão ....


Escrito por Um AA às 20h45
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21/02/2010

Cara Feia

É interessante e ruim.

Sempre que me deparo com uma cara feia, me sinto mal. Sinto-me culpado pelo mal estar que essa portadora de cara feia está, Deve ser coisa de minha infância, tempos já bem distantes, e mesmo assim me afetam. Penso às vezes que é uma fraqueza minha, uma falta de autoconfiança, um sentimento de inferioridade, que segundo li é coisa de minha formação.

Quando essas situações se apresentam, procuro analisar o que foi que deu início àquilo, e acho, sei que agi de forma que contrariou o outro. Então revejo minha posição, se estou sendo injusto, desonesto, agindo por impulso, Já fiz muito disso, hoje procuro ser sereno, pensar antes de falar, respeitar as opiniões dos outros, então fazendo a analise do que provocou a situação, percebo apenas que as coisas não aconteceram como o outro queria, aconteceram como tinham que acontecer.

Percebo também que poderia ter evitado essa situação caso agisse de acordo com o outro. Mas e minha opinião? Meus valores? Até quando tenho que sempre ceder?
Às vezes, quando me vejo diante destas caras feias, procuro conversar futilidades, comentários vazios, apenas para quebrar o gelo, e recebo monossílabos do tipo, “sim”, “é”, “não”,”hum hum”, então me sinto um bobo, agindo exatamente como uma criancinha querendo agradar sua mãe que ralhou com ela.

Até quando a aprovação do outro terá todo esse peso sobre minha vida, atrapalhando minha serenidade e prazer de viver?  A única pessoa que pode resolver isso sou eu, mesmo porque a cara feia não é minha, é do outro. Aí que acho que reside minha fraqueza, o sentimento do outro me afeta, eu não deveria permitir isso, teria que ser forte para não deixar me afetar. Preciso me esforçar.

Por muito tempo agi sempre de forma a agradar o outro, porque sabia que agia de forma errada, bebia, desrespeitava compromissos, não era de confiança, não podiam contar comigo. Mas essa era já acabou. Mesmo porque agindo sempre de forma a agradar o outro, eu me anulei, e me senti péssimo por causa disso, sem valor, sem personalidade, e isso é horrível, não quero mais me sentir assim, tenho meu valor, tenho meus direitos, tenho uma personalidade, o que me falta é força e coragem. Espera aí, não falta não, tanto é que aí está a cara feia, significa que fiz algo pensando em mim, o que me falta é paciência para conviver com a cara feia do outro. Então, “oração da serenidade” em mim.

Nem sempre cara feia é fome, pode ser conveniência.

Escrito por Um AA às 06h33
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16/02/2010

Ainda não estou acostumado

Ainda não estou acostumado a ser bem tratado. Ainda me espanto ao perceber que as pessoas me vêem com algum valor. Foram muitos anos de bebedeira, vestindo máscaras, representando papéis, me esforçando para ser o mais engraçado de todos, o mais querido de todos, ou seja o melhor de todos.
Precisei beber muito, sofrer muito, para concluir que não tenho que ser o melhor, não sou o melhor, sou apenas eu, e que gostoso é sentir que esse apenas eu tem algum valor.
Mergulhei de cabeça no programa de AA, nas salas de AA, no AA online, por desespero, por única opção. E gostei. Adorei.

Mas ... fiquei sem conexão por 8 das. Depois de 6 dias afastado, recebi um telefonema: Cadê voce? Depois mais um, e assim foram mais outros. Não foram muitos, e é justamente por isto que é mais importante. Quem disse que tenho que ter muitos amigos?
Aonde está escrito que é a quantidade de amigos que faz uma pessoa feliz?
Esses que me ligaram não me convidaram para um churrasco, para tomar uma gelada, tomar mais uma. Eles só queriam como eu estava. só isso. Não sei nem se o termo mais correto é preocupados, acho que não, estavam talvez apreensivos pelo meu sumiço, e sumiço virtual, porque alguns não conheço pessoalmente, então que magia é essa? Eu não uso mais máscaras, não me esforço para agradar aos outros, abro meu coração, coloco minhas fraquezas e dúvidas para fora, estou pelado, e eles gostam de mim ...

Será essa uma das promessas do programa?

Ah, sim recebi também alguns emails, e obrigado heim? Estou bem sim, e é por causa de voces que estou assim tão bem ...

Muito obrigado a todos


Escrito por Um AA às 13h26
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10/02/2010

O Óbvio

Dia destes eu conversava com minha mãe e ela reclamava das atitudes de meu irmão, ou melhor, da falta de atitudes dele. Dizia que ele não fazia nada, que reclamava de tudo, ficava irritado por ter que levar ela ao
supermercado, ao banco, ao médico, à feira, que reclamava do carro, do mecânico, da noiva, mas não tomava nenhuma atitude, e olhe que ela bem o alertava de como deveria agir, o que deveria fazer, como era difícil viver
...

E eu disse: não mãe, não é difícil viver não, é fácil.
Ela me perguntou: e como fazer então para ficar fácil?
Respondi: se me pedirem uma opinião sobre um assunto, eu dou, senão fico só com meus problemas. Se a pessoa fizer ou não o que digo não tem importância, sigo minha vida, fiz minha parte.

E ela respondeu: Ah ... mas assim fica fácil !

??????? Pois é, eu não respondi, é minha mãe. Não era exatamente isso que ela havia perguntado?

Nem todos estão preparados para aceitar o óbvio.

Também agi assim diante do 1º. Passo, era óbvio, mas para os outros, não para mim.


Escrito por Um AA às 21h35
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04/02/2010

Meu Travesseiro

Meu travesseiro tem muita estória para contar. Ele guarda inúmeros segredos.

Ele escutou várias promessas  de coisas que não fiz. Por exemplo, quando à noite, eu angustiado, prometia que não ia mais beber, que no dia seguinte seria diferente, acontecesse o que fosse, não iria beber. E ele quieto ouvia; mas na noite seguinte, eu novamente deitava, colocava minha cabeça sobre ele, e me lamentava outra vez, pois havia bebido. Tudo que eu não queria ouvir, naquela hora era aquela frase de repreensão: eu não disse? Você não cumpriu de novo a sua promessa. Mas ele sempre quieto. Acho até porque ele acreditava em minha promessa. Ele sabia que no íntimo eu queria mesmo parar de beber, mas não conseguia. Então ele se calava, e de novo ouvia outra promessa igual, ouvia com fé, acreditando, talvez até
pensando: quem sabe hoje se concretize.

Ele conhece todos os defeitos de meus parentes, de meus amigos, de meus chefes. Já ouviu enumeras vezes eu discorrer de seus defeitos, até os imaginários discursos proferidos a eles sobre seus defeitos, de como deveriam agir, de como deveriam ser. Teve noite que repetia várias vezes o mesmo discurso, cansativamente, como se quisesse decorá-los até parece que eu teria coragem de dizer tudo aquilo que estava pensando. Meu travesseiro deve ter aprendido muito em como se exercita o rancor, a vingança, ainda bem que não pratica, como eu tanto praticava. Acho que ele é um sábio, pois os sábios aprendem muito, mas só praticam aquilo que pode gerar crescimento.

Várias manhãs eu o agarrava, espremia contra o peito, na tentativa de ele poder acalmar meus tremores, fazendo novas promessas, pedindo a ele para me acalmar, e ele sempre ali, quieto, se deixando amassar, como um cúmplice, mas solidário. Ah se ele falasse: tá vendo? Ta vendo no que dá você beber desse jeito? Acho que eu o teria estampado na parede! Mas não, ele sempre quieto, solidário.

Ele também ouviu planos mirabolantes de como ter sucesso na vida, de como fazer par ser melhor que os outros. Eu os discorria detalhe por detalhe, repetia, acho até que tentava o  convencer, como se talvez nem eu mesmo acreditasse naquilo. E ele paciente ouvia, fazia que entendia , mas não lembro de ter me entusiasmado a prosseguir. Era um sábio, sábio calado e paciente, tão paciente que pôde esperar os dias de calmaria.

Hoje ele desfruta comigo as noites de paz, recebe minha cabeça ao fim de um dia, e divide comigo aqueles momentos de rever as coisas que pratiquei, a beleza de ter passado mais um dia sóbrio, de ter podido ajudar alguém, ouvindo, partilhando, relacionando onde eu poderia ter agido melhor, o que fazer amanha para ser mais humano que hoje, providenciando novas ações de correção. Hoje ele sorri para mim e diz durma em paz.

Ele é parte integrante de meu 10º passo.

 


Escrito por Um AA às 14h19
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01/02/2010

O convite

Fui convidado a participar do dia de visita na clínica onde fiquei internado.

As visitas acontecem apenas uma vez por mês, e no três meses que se seguiram à minha alta, eu fui, depois, comecei a trabalhar e deixei de ir.

Nessas ocasiões, a palavra é oferecida a quem já recebeu alta, se quiser fala, senão, tudo bem. Eu falava. Precisava falar. Era minha obrigação dizer àquelas pessoas que estavam internadas, que dava certo, que era bom, havia uma saída. Eu conhecia parte daqueles sentimentos que povoavam as cabeças daquelas pessoas. Isolamento, sim, mas era necessário, esse afastamento da família, dos conhecidos, do trabalho, da vida lá fora enfim, era muito importante. Esse isolamento nos fazia ficar mais próximos de nós mesmos, nos dava tempo para pensar em nós, realmente era aquela vida que desejávamos?

Não, com certeza não. Então qual? Aqueles eram os momentos para que nós refletíssemos.

Horários? Sim, também era importante, falando de mim, eu não tinha mais horário para nada. Comia a hora que tinha fome, dormia quando tinha sono, levantava quando queria. Que se danem os outros, estão aqui para me servir; que se dane o mundo! Não é bem assim. Liberdade é bom, mas tem limite, daquela forma que vivia, sem horários, minha vida se transformara num caos,
eu podia até negar, mas só para fora, por dentro sabia que estava errado.

Disciplina? Sim, ela educa. Respeito? Ora, é fundamental. Como posso querer respeito se não o dou? E eu não tinha respeito por ninguém, eu me achava o dono da verdade, de todos, e ali vi que todos se achavam assim, tive que aprender que era só mais um, e que bom aprender isso, eu era só mais um doente, doente como eles, não era único, e tinha alguns que voltavam depois
da alta: então tem solução? Oba! Também quero sair dessa. Tamo junto!

Era isso que eu falava a eles, precisava falar, mas parei de ir.

Agora vou outra vez, Tenho que falar a eles que há uma solução. Vale a pena.


Escrito por Um AA às 16h58
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25/01/2010

O Outro

Quando o outro me incomoda. O que fazer?

Me ensinaram algumas coisas, tipo, saia de cena, isto algumas vezes dá, outras não, não há espaço físico para isso. Não devo falar do outro, isso também me ensinaram, não quero falar do
outro, mas ele ou eles me incomodam. Também me ensinaram que o problema pode estar comigo, aliás, me disseram que quase sempre o problema está comigo.

A prepotência do outro me incomoda, bem, eu sou prepotente, já fui muito mais do que hoje, mas ninguém vira santo de uma hora para outra, o alento que tenho é que hoje me percebo, quando me vejo agindo com prepotência, paro, reflito, recuo, mudo a prioridade para meus ouvidos, e me sinto melhor. Acho que a prepotência do outro me incomoda porque ele não para,
como eu faço hoje, ou melhor, sendo mais sincero, porque ela não age como eu queria que ele agisse, sendo mais sincero ainda, porque ele não é como eu queria que fosse.

Pronto, cheguei aonde precisava chegar. O outro é como é, e não como eu quero que seja. Esse foi o ponto de partida para minha recuperação, aceitar os outros como são.

Portanto, realmente o problema continua comigo, não posso deixar isso me atingir, para isso preciso me esforçar, me dedicar, e é isso que vou fazer.

E quando o que me incomoda é o estado de espírito do outro? A apatia, o isolamento, a auto-piedade, esses sentimentos do outro me passam a sensação de que sou culpado por isso, e isso ma incomoda. Sei que não sou culpado, mas continua me incomodando. Aqui, acredito que cabe o mesmo raciocínio acima; aceitar o outro como é, se sei que não provoquei este estado de
espírito, não tenho porque me culpar, só me resta aceitar, e é o que vou fazer, vou me esforçar, me dedicar para aceitar o outro como é, mas vou sair de cena quando possível, porque não sou de ferro.

Agora me bateu outra dúvida. Posso fazer alguma coisa? Para mim seria aceitar, e quando pesasse muito, sair de cena, e para o outro? Para o outro teria que conversar e tentar convencê-lo que está agindo de forma errada, que seria melhor agir de outra forma, mas isto seria querer mudar o outro, e isto só se o outro quiser, se o outro pedir ajuda.

Aqui me vem à cabeça uma oração feita por uma pessoa que acredito ser iluminada, todo final de reunião, ele faz uma roda com as pessoas de mãos dadas e ora assim:

“ Só podemos modificar a nós mesmos, e ao outro, amar “

É, acredito que é isso  mesmo.  Já me sinto menos incomodado.


Escrito por Um AA às 23h44
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BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese


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